Reflexões Sobre o Bullying

Por Vera Regina Miranda
 

O bullying é uma expressão que tem origem na palavra inglesa bully e significa valentão, brigão. Como verbo, quer dizer ameaçar, amedrontar, tiranizar, oprimir, intimidar, maltratar.

O primeiro a relacionar a palavra ao fenômeno foi Dan Olweus, professor da Universidade da Noruega. Ao pesquisar as tendências suicidas entre adolescentes, Olweus descobriu que a maioria desses jovens tinha sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, bullying era um mal a combater. Ainda não existe termo equivalente em português, mas alguns psicólogos e estudiosos do assunto o denominam “violência moral”, “vitimização” ou “maus tratos entre pares”, uma vez que se trata de um fenômeno de grupo em que a agressão acontece entre iguais, estudantes, tanto do sexo masculino quanto do sexo feminino.

Os atos de violência (física ou não) ocorrem de forma intencional e repetitiva contra um ou mais alunos que se encontram impossibilitados de fazer frente às agressões sofridas. Tais comportamentos não apresentam motivações específicas ou justificáveis. Em última instância, significa dizer que, de forma “natural”, os mais fortes utilizam os mais frágeis como meros objetos de diversão, prazer e poder, com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar suas vítimas. O bullying se configura, geralmente com uma atitude de desrespeito ao outros e às diferenças individuais.

As formas de bullying são:

  • Verbal (insultar, ofender, falar mal, colocar apelidos pejorativos, “zoar”)
  • Física e material (bater, empurrar, beliscar, roubar, furtar ou destruir pertences da vítima)
  • Psicológica e moral (humilhar, excluir, discriminar, chantagear, intimidar, difamar)
  • Sexual (abusar, violentar, assediar, insinuar)
  • Virtual ou Ciberbullying (bullying realizado por meio de ferramentas tecnológicas, tais como celulares, filmadoras, máquinas fotográficas, sites de relacionamento e a internet em geral.)

Quando se aborda sobre o tema é comum a menção à tríade: agressor,agredido e espectador.

Os que praticam o bullying são chamados de “agressores”, ou seja, ,são aqueles que vitimizam os mais fracos, têm pouca capacidade de se colocar no lugar dos outros. Normalmente sentem necessidade de dominar e subjulgar os outros, de se impor mediante o poder. Costumam ser impulsivos, irritando-se facilmente e tendo baixa resistência para lidar com contrariedades e frustrações.

As vitimas sentem-se solitárias, isoladas, incompreendidas, indefesas. Sofrem silenciosamente, de maneira cruel e velada e podem tornar-se reféns de uma ansiedade flutuante e circulante que interfere em seus processos de aprendizagem, pela excessiva mobilização psíquica de medo, constrangimento, angústia e raiva reprimida.

A testemunha ou espectador é o que presencia o bullying, mas não o pratica nem o sofre, representando a maioria dos alunos que convive com o problema e prefere não se manifestar, por ter medo de se tornar o próximo alvo do agressor. Mesmo não sofrendo as agressões diretamente, muitos deles podem se sentir inseguros e incomodados. Alguns espectadores reagem negativamente, uma vez que seu direito de aprender em um ambiente seguro e solidário foi violado, o que pode influenciar sua capacidade e progresso acadêmico,emocional e social.

Além da tríade dos envolvidos, vale mencionar o contexto onde o fenômeno pode ocorrer,sendo frequente nas escolas (públicas e particulares) e sua incidência mais usual costuma ser longe do olhar e da escuta dos adultos.

O bullying pode desencadear processos prejudiciais ao desenvolvimento psíquico dos seus envolvidos. Comumente a literatura focaliza apenas os sentimentos da vítima, como baixa auto-estima, pensamentos de vingança, dificuldades de aprendizagem, problemas psicossomáticos.

Muitas vezes o fenômeno começa em casa. Entretanto, para que os filhos possam ser mais empáticos e possam agir com respeito ao próximo, é necessário primeiro a revisão do que ocorre dentro de casa. Os pais, muitas vezes, não questionam suas próprias condutas e valores, eximindo-se da responsabilidade de assumir seu papel de educadores. Ressalta-se que o exemplo dentro de casa é fundamental, já que o ensinamento da ética, solidariedade e altruísmo se inicia ainda no berço e se estende para o âmbito escolar, onde as crianças e adolescentes passarão grande parte do seu tempo e de seu desenvolvimento.

A identificação precoce do bullying pelos responsáveis (pais e professores) é de suma importância. As crianças normalmente não relatam o sofrimento vivenciado na escola, por medo de represálias e por vergonha. A observação dos pais sobre o comportamento dos filhos é fundamental, bem como o diálogo franco entre eles. Os pais não devem hesitar em buscar ajuda de profissionais da área de saúde mental, para que seus filhos possam supe¬rar traumas e transtornos psíquicos.

Diante da constatação e da comprovação das conseqüências e prejuízos que a violência velada ou explícita chamada de bullying traz para os indivíduos envolvidos, se faz necessário pensar em estratégias de intervenção que visem diminuir esses atos de violência e que possam promover o desenvolvimento de indivíduos movidos pela ética e pela lei do bom convívio. Todos desejamos que as escolas sejam ambientes seguros e saudáveis, onde crianças e adolescentes possam desenvolver, ao máximo, os seus potenciais intelectuais, afetivos e sociais. O bullying e o desrespeito tendem a desaparecer onde haja um clima de atenção e de vínculo entre as pessoas e, nesse sentido, é vital o investimento em valores morais e em um clima que proporcione e promova comportamentos favoráveis e benéficos de auto-responsabilidade, intencionalidade, cooperação e de paz entre todas as pessoas.

REFERÊNCIAS:
SILVA,A.B.B.Cartilha do bullying.Brasília,2010.www.cnj.jus.br
FANTE, C. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência das escolas e educar a paz. Campinas: Veruz, 2005.
REGO, TERESA CRISTINA. Bullying, um problema que merece tradução. Revista Nova Escola. http://revistaescola.abril.com.br/ensino-medio/bullying-problema-merece-traducao-475045.shtml acessado em 09/11/2010.

Texto produzido com a colaboração das psicólogas Maria Elizabeth Nickel Haro (CRP-08/00211) e Theresinha Vian Rambo (CRP-08/12200), além da acadêmica de Psicologia da Universidade Positivo Rebeca Valério Rosenstock.