Psicologia Clínica e a Pessoa do Terapeuta

Por Thays Araujo
 

Nada lhe posso dar o que não exista em você mesmo.
Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma.
Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.
Eu ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo.

(Herman Hesse)

As psicoterapias surgiram desde a criação da Psicanálise por Sigmund Freud, ao fim do século XIX e início do século XX, para o tratamento de manifestações histéricas acompanhadas de sintomas físicos. Desde então novas e diferentes correntes surgiram. Cada uma com distintas visões de mundo e de homem, mas todas com o intuito de compreender o comportamento humano e suas relações.

Este texto tem como foco a Psicologia Clínica enquanto forma de trabalho e não simplesmente como um local de trabalho, como lembra FIGUEIREDO (2004, p. 60) quando diz que “é um equívoco tratar a clínica como uma mera área de atuação, ou defini-la pela sua intenção curativa”. Desta forma, não há menção às diferentes abordagens teóricas existentes, mas sim a psicoterapia como forma de trabalho do psicólogo seja com casais ou na terapia individual.

No percurso histórico da Psicologia constata-se que “na época do cristianismo primitivo, a psicologia era chamada de Terapia e praticada por membros de uma seita que denominavam de Terapeutas (de Theos apens, os que conduzem à Deus, à totalidade) a seus membros, dedicados ao carisma de servir a todos, indistintamente, na busca de um lenitivo para seus males” (VALIM, 1998, p.42). Essa definição restringia a atuação do profissional como uma forma meramente de ajuda, na qual quem tem os conhecimentos necessários é o terapeuta. Atualmente as conceituações e definições do trabalho psicoterápico ainda são controvertidas, mas consideram o paciente como parte ativa do processo terapêutico além de inserir a pessoa do terapeuta nesse contexto.

O caráter científico e metodológico da psicoterapia é ressaltado por MACEDO e CARRASCO (2005, p. 25) os quais explicam que “a prática da clínica possibilita a experiência de confrontação da teoria viabilizando reformulações, transformações que configuram uma situação de interdependência e retroalimentação entre elas. Esse movimento caracteriza a dinamicidade existente entre teoria, método e técnica”. WEITEN (2002, p. 442) acrescenta que “psicoterapia refere-se ao tratamento profissional prestado por alguém com treinamento especial”.

RAMADAM (1987, p.5) explica a psicoterapia como o “tratamento realizado através de meios psicológicos”, ou seja, um processo simbólico ligado a informação e comunicação. E vai além quando afirma que, psicoterapias são “todos os métodos terapêuticos essencialmente baseados na comunicação e relacionamentos sistematizados entre as pessoas envolvidas”.

Sobre a comunicação existente nesse contexto, a autora esclarece que “a psicoterapia promove transformações aos indivíduos através de uma troca de informações continuada, obedecendo regras (códigos) pré-estabelecidos entre as partes”. (RAMADAM, 1987, p. 17). Nesse sentido, “toda comunicação e todo relacionamento evocam, obrigatoriamente, as seguintes questões fundamentais: quem fala, o quê, para quem, por quê, quando, onde” (RAMADAM, 1987, p. 9).

Sobre a tarefa das psicoterapias RAMADAM (1987, p. 14) expõe que:

A comunicação, através do relacionamento organizado e sistemático, constitui o principal instrumento das psicoterapias em geral. Sua tarefa essencial é decodificar, interpretar e reinterpretar o simbolismo da linguagem verbal, gestual, comportamental, assim como dos sintomas corporais da doença. Isso porque a simbolização, de um lado, é uma vantagem do ser humano sobre outras espécies, mas, também, uma fatalidade: nenhum evento na vida do homem escapa de ser registrado ou traduzido em linguagem simbólica”.

Desta forma, estas definições vão ao encontro do conceito de FIGUEIREDO (2004, p. 63) quando afirma que “a clínica define-se, portanto, por um lado ethos: em outras palavras o que define a clínica psicológica como clínica é a sua ética: ela está comprometida com a escuta do interditado e com a sustentação das tensões e dos conflitos”. Assim, concordo com MACEDO e CARRASCO (2005, p. 28) quando expõem algumas atribuições do psicólogo: “o terapeuta deve estar capacitado a buscar esclarecimentos, perceber contradições, tolerar situações de ansiedade e também estar habilitado a reconhecer as defesas e os medos de estruturação do paciente”. Além disso, quando os autores falam sobre as diferentes funções do paciente e do terapeuta estabelecem que “o paciente busca uma ajuda e atribui ao terapeuta a capacidade de auxiliá-lo em suas dificuldades. No que se refere ao terapeuta cabe-lhe situar a entrevista clínica no domínio de uma relação profissional”. (MACEDO; CARRASCO, 2005, p.26). Por fim, ressaltam a importância da ética na atuação profissional dizendo que “a observância aos aspectos éticos somados à experiência, ao conhecimento e à competência do terapeuta, contribuirá de forma significativa na adequação na condução do processo no qual ambos estão inseridos”. (MACEDO; CARRASCO, 2005, p.27).

Sobre os motivos que levam as pessoas a buscar auxílio psicoterápico ANGERAMI-CAMOM (2002, p. 1) diz que “o que se busca quando há procura por um tratamento psicoterápico, independentemente da vertente teórica que possa norteá-lo, é a melhora de nossa condição humana, a melhora de nossa condição enquanto pessoa”.

Isso ocorre dentro de um contexto específico e pré-determinado. É o setting terapêutico, o qual para ANTON (2002, p. 287) tem como objetivo “fornecer a aliança terapêutica e o desenvolvimento do trabalho” e que fazem parte deste contexto “a pessoa do paciente e a pessoa do terapeuta, devidamente associados a partir de motivos e objetivos que dizem respeito ao processo”.

Portanto, em um contexto terapêutico o psicólogo possui atribuições e responsabilidades em relação àquele que procura ajuda. Nas palavras de ROGERS (2005, p. 29) a atuação do psicólogo é “um processo de libertá-lo para um amadurecimento e um desenvolvimento normais, de remover obstáculos que o impeçam de avançar”.

Os autores escolhidos por mim para referenciar este tema convergem para a ênfase no processo de terapia, em como ela acontece, quais são suas funções e objetivos independentemente de ser um trabalho individual ou com o casal. Essa idéia fica clara com as belas palavras de ROGERS (2005, p. 30) ao falar sobre o crescimento pessoal na psicoterapia: “a própria relação terapêutica é uma experiência de crescimento, de desenvolvimento. Não é uma preparação para a mudança, é ele próprio mudança”.

A PESSOA DO TERAPEUTA

E assim é: somos espiritualidade, tanto quanto somos humanidade.
Somos espirituais tanto quanto somos psicoterapeutas

(Valdemar Augusto Angerami-Camon, 2002, p.46)

Dentro do contexto terapêutico questões do paciente estão presentes assim como as questões da pessoa do terapeuta. Este é um profissional habilitado a realizar seu trabalho porque possui conhecimentos técnicos, científicos e metodológicos que orientam a prática psicológica. Entretanto, é uma pessoa que tem uma história de vida única, a qual se situa em um encontro com outra pessoa que também possui suas singularidades. Portanto, no setting terapêutico não é incomum que haja uma construção mútua das relações a partir da ampliação de contextos geradores de criatividade e competências.

Desta forma, o aspecto mais desafiador na formação do profissional é o desenvolvimento da pessoa do terapeuta como explica COLOMBO (2006, p. 15 -16):
O trabalho com sua história, suas crenças seus preconceitos, sua flexibilidade diante das diferenças, seus modelos de homem e mulher, sua relação com o poder, sua tolerância às situações de agressividade, suas condições para atravessar disputas sem rapidamente definir o certo e o errado, sua capacidade de ampliar momentos afuniladores de conforto, sua condição de, no meio dos ‘ruídos’, conseguir construir um foco, sua possibilidade de suportar ‘não agradar’, de ‘ser excluído’, de não fazer parte do par, de construir parceria com o casal, e não com o marido ou a mulher, excluindo um dos cônjuges, enfim, ser tocado em todos os aspectos de sua história de pertencer e de ser excluído, sem perder seu lugar de construtor de contextos reflexivos, que possam mobilizar transformação das histórias vividas”.

Este pensamento reflete o modelo de trabalho da autora que se baseia no desenvolvimento da pessoa do terapeuta e nos recursos que ele poderá oferecer. Considera que o terapeuta “trabalha na interseção dos mundos de todas as pessoas envolvidas naquela interação, com suas crenças, vivências e histórias” (COLOMBO, 2005, p. 17). Este modelo remete ao diálogo e interação vividos na psicoterapia e como bem lembra ANDERSEN (1994) sobre as conseqüências das palavras quando ele afirma que somos afetados pelo que dizemos assim como afetamos aos outros que escutam, portanto, aquilo que se comunica é oriundo da história de vida de cada um. Desta forma, a expressão da singularidade do terapeuta deve ser considerada. A isso COLOMBO (2006) dá o nome de co-construção, ou seja, terapeuta e paciente formam juntos, cada um com sua história pessoal, um contexto relacional que visa a criação de novas alternativas, tomada de consciência e um espaço para aprendizagem.

ELKAÏM (1990) desenvolve o conceito de ressonância para compreender os conteúdos que surgem entre o terapeuta e o paciente e de que modo estes conteúdos podem ser trabalhados a favor de ambos.

Para este autor ressonância é “agrupamentos particulares, constituídos pelas interseções de elementos comuns a diferentes indivíduos ou diferentes sistemas humanos, que suscitam as mútuas construções do real dos membros do sistema terapêutico…” (ELKAÏM, 1990, p.320). Este conceito permite que o terapeuta objetive o que está observando a partir de si próprio e por sua participação no sistema terapêutico.

Este conceito permite e autoriza que os dois sistemas, paciente e terapeuta, interajam a partir da sua condição humana e valida a experiência da intersubjetividade num contexto relacional terapêutico. Nas palavras de ELKAÏM (1998, p.320):
… denomino ressonâncias esses agrupamentos particulares, constituídos pelas interseções dos elementos comuns a diferentes indivíduos ou diferentes sistemas humanos, que suscitam as mútuas construções do real dos membros do sistema terapêutico; esses elementos parecem ressoar sob o efeito de um fator comum, um pouco como um corpo vibra sob efeito de uma dada freqüência sonora”.

Desta forma, interseções e ressonâncias fazem parte do sistema terapêutico e o terapeuta estando atento às suas “vozes internas” (COLOMBO, 2006, p. 22) pode utilizar seus conhecimentos e experiências como instrumento de trabalho, porque é impossível separar a pessoa do terapeuta com a identidade profissional. ROSSET (2005, p. 58) ressalta que “pelas experiências, vivências, sentimentos, cada terapeuta vai sendo formado”. Ademais acrescenta que “a história pessoal do terapeuta influencia todas as suas escolhas profissionais” (ROSSET, 2005, p. 41). Ainda a este respeito, diz:

O padrão de funcionamento de cada terapeuta vai dar tônica ao seu trabalho, das dificuldades, da possibilidade de flexibilizar e instrumentalizar. A partir do padrão básico familiar, da tomada de consciência, o terapeuta pode alterar e flexibilizar seu próprio padrão, de modo a aprender, crescer como pessoa e, assim, poder instrumentar sua forma de ser, para tomar atitudes mais terapêuticas com seus clientes, de acordo com as necessidades destes”. (ROSSET, 2005, p. 57)

Sobre a consciência que o terapeuta tem sobre suas dificuldades a autora afirma que “o que realmente faz a diferença é o nível de consciência que ele tem delas, pois só assim poderá ter controle, e se for o caso, alterá-las” (ROSSET, 2005, p. 59).

Em relação ao padrão de funcionamento ROSSET (2005, p. 58) explica que “cada terapeuta é moldado no tempo pelo seu padrão de funcionamento, que é a sua forma básica de pensar, sentir, agir e reagir tanto ao seu mundo interno, como a atos, sentimentos, falas e energia das pessoas com quem se relaciona. Essa forma de funcionar será transportada para o seu papel e trabalho como terapeuta”.

Desta forma, o terapeuta deve estar atento às suas próprias crenças, pensamentos, sentimentos, vivências em relação ao casamento ou relacionamento conjugal, pois estas percepções e experiências irão orientar escolhas e formas de se trabalhar este tema na psicoterapia.

MACEDO e CARRASCO (2005, p. 28) lembram os terapeutas que “a compreensão de seus próprios processos psíquicos facilitará a comunicação e a relação terapeuta-paciente”, assim como COLOMBO (2006, p. 13) ressalta a importância da “compreensão que o self do terapeuta é seu principal instrumento de trabalho”.

COLOMBO (2006, p.13) busca construir “um espaço vivencial, no qual as vozes internas sejam conectadas, ouvidas e percebidas em suas interseções com o aqui e agora que vivemos como pessoas e profissionais”. Assim, a autora pensa que “não podemos falar sobre os outros, mas sim de nós com os outros” e assim vamos construindo uma rede de relações impermeadas de interseções e ressonâncias.

As majestosas palavras de COLOMBO (2006, p. 40), grande inspiradora e colaboradora dessas idéias, resumem o que acredito ser uma relação:
A autoria da própria vida, a co-autoria da construção das relações amorosas, a existência de cada um de nós sempre em relação à existência de tantos legítimos outros são os grandes desafios que enfrentamos na construção de nossos contornos individuais e dos contornos de nossa parceria”.

O que estes autores esclarecem e permitem é uma reflexão aos psicoterapeutas sobre a importância de se haverem com sua própria história e o quanto devem ser capazes de criar algo novo, próprio, que é a manifestação única do seu self singular.

REFERÊNCIAS
ANDERSEN, T. El equipo reflexivo: diálogos sobre los diálogos. Barcelona: Gedisa, 1994.
ANGERAMI-CAMOM, V. A. A. O papel da espiritualidade na prática clínica In: CAMOM et al. Novos rumos na psicologia da saúde. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.
ANTON, I. C. Homem e mulher: seus vínculos secretos. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.
COLOMBO, S. F. (org) Gritos e sussurros interseções e ressonâncias: trabalhando com casais. Vol 1 e 2. São Paulo: Vetor, 2006.
ELKAÏM, M. (org.) Panorama das Terapias Familiares. São Paulo: Summus, Vol.1, 1998.
ELKAÏN, M. Se você me ama, não me ame: abordagem sistêmica em psicoterapia familiar e conjugal. São Paulo: Papirus, 1990
FIGUEIREDO, L. C.M. Revisitando as psicologias: da epistemologia à ética das práticas e discursos psicológicos. 3ª ed. rev. e ampl. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
MACEDO, M.M.K. e CARRASCO, L.K. (org) (con)textos de entrevistas: olhares diversos sobre a interação humana. SP: Casa do Psicólogo, 2005.
RAMADAM, Z.B.A. Psicoterapias. São Paulo: Editora Ática, 1987.
ROGERS, C. R. Psicoterapia e consulta psicológica. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
ROSSET, S. M (org) Relações de casal: tempo, mudança e práticas terapêuticas. Curitiba: Sol, 2005.
VALIM, L.C. Quem Pode Ser Terapeuta In: MELLO, L.M.T; POYARES, M.M.D; ALMEIDA, M.M. Compartilhar em Terapia: seleções em Ramain-Thiers. São Paulo: Caso do Psicólogo, 1998.
WEITEN, M. Introdução à psicologia: temas e variações. São Paulo: Pioneira Thomson, 2002.