O PAPEL DAS EMOÇÕES NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM

Por Thays B. L. Araujo
 

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Os sentimentos são parte integrante da nossa subjetividade e estão interligados às nossas cognições, aos nossos comportamentos e nossas reações corporais.

Existem emoções naturais e fisiológicas que aparecem em todas as pessoas. Elas podem ser alegria, desagrado, medo, raiva, surpresa e tristeza. São as chamadas emoções universais. Essas emoções são agradáveis ou desagradáveis, nos mobilizam para realizar atividades e fazem parte da comunicação interpessoal. Portanto, essas emoções atuam como poderosos motivadores da conduta humana e podem ter um importante papel no bem estar psicológico ou nos estados patológicos. Por isso é tão importante que crianças e os adolescentes saibam lidar com seus sentimentos, identificando e administrando bem suas sensações e pensamentos, podendo melhorar o reconhecimento do que sentem, aumentando seu autoconhecimento e o controle das emoções tendo mais condições de agir de forma mais saudável e proveitosa nas suas vivências diárias.

O trabalho com as emoções é essencial, pois prazeres e sofrimentos da vida estão profundamente envolvidos com os sentimentos. Além disso, grande parte das nossas condutas estão relacionadas com nossos sentimentos e o estabelecimento de relacionamentos interpessoais ocorre a partir de algum tipo de sentimento (empatia, atração, desconforto, etc.). Desta forma, as emoções tem um importante papel no processo de ensino e aprendizagem, pois atuam como definidoras do sentido subjetivo que é dado às experiências vividas e assim atuam como organizadores do nosso comportamento.

Além do trabalho com as emoções promover desenvolvimento do autoconhecimento, da performance intelectual e social, é fundamental na conformação da memória, uma vez que os estímulos carregados de emoção são registrados de maneira intensa na memória. A esta relação Vygotsky (2001) chama de regra pedagógica, a qual se refere à utilização de reações emocionais no processo de aprendizagem como estratégia de ensino e motivação através dos sentimentos despertados ao se aprender algo novo. Em outras palavras Monte-Serrat (2007), explica que “a memória é o continente da subjetividade e a plataforma da inteligência, do raciocínio e da criatividade”.

Pesquisas e estudos na área revelam que as emoções podem favorecer a execução de uma tarefa de cunho intelectual. Uma pesquisa realizada na Universidade de Cornell comprovou que o humor alegre ajuda as pessoas a encontrar soluções mais criativas e eficazes para os problemas. Nesse estudo, três grupos de estudantes deveriam solucionar um desafio em 10 minutos. Um grupo havia assistido anteriormente um filme cômico, outro um filme neutro e o outro grupo não assistiu filme algum. Os estudantes que obteram maior êxito na resolução do desafio foi do grupo que assistiu ao filme cômico. Este dado mostra que as emoções influenciam as habilidades cognitivas, as quais são indispensáveis no processo de aprendizagem e, portanto, o desenvolvimento da inteligência é inseparável da afetividade. Um exemplo disso é a diferença de desempenho da criança que “gosta” de matemática e da que não “gosta”, onde nos dois casos o fator emocional influencia desde hábitos de estudos, até progressos ou dificuldades de aprendizagem.

Além das questões de ensino e aprendizagem, no cenário escolar atual, a influência das emoções está sendo cada vez mais discutida visto que o bullying, uma das formas específicas de agressividade, compõe o quadro da violência nas escolas. Seu efeito na aprendizagem é extremamente danoso. O ato violento é antagônico ao ensino e a qualidade do processo ensino-aprendizagem fica comprometida, pois se instala um ambiente de terror, medo e angústia nos alunos que os impedem de aprender saudavelmente, o professor de lecionar com eficácia e a convivência fica permeada de medo e angústia.

O bullying não são brigas ou conflitos normais que ocorrem entre estudantes, mas atos de intimidação, ameaças sistemáticas com atos de violência gerando sofrimento psicológico e até afastamento da escola comprometendo o curso acadêmico dos alunos. É preciso adequar as ferramentas educacionais a uma sociedade que está se modificando, e reconhecer a agressividade juvenil e combatê-la com práticas educativas preventiva.

Ocupar-se desse fenômeno é importante para prevenir comportamentos antissociais no futuro, pois estudos mostram que jovens agressivos tendem a apresentar comportamentos problemáticos ligados à criminalidade e abuso de álcool. Ademais, as vítimas das agressões experimentam uma forte opressão que gera profundo sofrimento psicológico, o qual pode culminar em estados de ansiedade e depressão, baixa auto-estima, e deficiências nos processos de aprendizagem, em função do medo excessivo, constrangimento, angústia e raiva reprimida.

Portanto, trabalhar as emoções no ambiente escolar significa dotar os alunos de recursos e estratégias de conduta que lhe permitam ter maior controle de si mesmos, pois aquele que aprende a gerenciar melhor suas emoções pode evitar ou minimizar a interferência de pressões externas e internas que se convertem em estresse, melhorando a saúde psicológica e tendo mais chances de progredir tanto no âmbito acadêmico quanto social.

O educador de hoje tem funções muito além das obrigações pedagógicas em si e assume um papel de agente de transformação na construção do saber e da cidadania e quanto mais recursos tiver para propiciar esse desenvolvimento, mais chances terá de criar um contexto de aprendizagem saudável, motivante e criativo onde o saber e o afeto coexistem em harmonia.

 

Referências:

FANTE, C. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência das escolas e educar a paz. Campinas: Veruz, 2005.

GONZÁLEZ REY, F. L. Sujeito e subjetividade. 1ª ed. São Paulo: Thomson, 2003.

VYGOTSKY, L. S. Psicologia Pedagógica. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MONTE-SERRAT, F. Emoção, afeto e amor: ingredientes do processo educativo. São Paulo, Editora Academia de Inteligência, 2007.

PIAGET, J. Aprendizagem e Conhecimento. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1979.

 

Thays B. L. Araujo

Psicóloga com especialização em Terapia Comportamental

e Cognitiva, psicoterapeuta e Hipnoterapeuta Ericksoniana.

Cocriadora do ‘Jogo dos Sentimentos’ e sócia-diretora da AFETTUS